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Imparcialidade no Jornalismo: Mito?

Setembro 2, 2008 · Deixe um comentário

Segue o rascunho do primeiro tópico da minha monografia =D. No trabalho vou falar sobre a interatividade como ferramenta de persuasão.

Jornalismo e imparcialidade

Embora promova uma imagem de imparcialidade a indústria de informação não é capaz, seja por características lingüísticas ou éticas, de atingir o ideal prometido. A técnica jornalística apurada e o cuidado para manter uma linguagem objetiva, que bloqueie o uso de subjetividade, funcionam como pretexto para criar a imagem de instituições que permitem trazer um relato fiel dos fatos para o público.

A parcialidade dos discursos é uma questão linguística, não associada necessariamente à comprometimentos éticos e morais. Para Koch[1], toda atividade de comunicação contém, em maior ou menor grau, argumentação. Mais ainda, a própria linguagem “pode ser encarada como ‘ação sobre o mundo dotada de intencionalidade’, veiculadora de ideologia, caracterizando-se, portanto, pela argumentatividade”.

Com este posicionamento a autora chega a conclusão de que todo discurso contém traços ideológicos. A neutralidade plena é impossível, pois o discurso que busca a imparcialidade carrega a ideologia da sua própria objetividade. Para a autora, “este postulado nega a distinção entre dissertação e argumentação. Também mostra que há argumentatividade em texto narrativos e discritivos”.

O comprometimento ideológico da neutralidade também já foi sido observado por Paulo Freire[2], ao apontar que o discurso da neutralidade parte de indivíduos que “estão comprometidos consigo mesmos, com seus interesses e com os interesses dos grupos aos quais pertencem”. Para ele, aqueles que dizem possuir uma postura neutra frente ao mundo não o são e revelam medo em assumir um compromisso de humanização do mundo para a humanização dos homens.

Esta posição é aceita por Philipe Breton[3], embora ele faça ressalvas para sejam estabelecidas barreiras para definir se houve ou não intencionalidade clara de argumentação no discurso.

“De certa maneira esta posição é correta, pois o homem se voltou aos outros, graças à sua linguagem. Mas, para se exprimir melhor, é necessário dar a este termo um sentido mais preciso e restabelecer, mesmo que um pouco artificialmente, fronteiras para distinguir, do ponto de vista da comunicação e de sua intencionalidade, as ações humanas que visam fazer partilhar uma opinião, das ações que buscam informar, seduzir… ou ainda dizer nada.”

Para José Marques de Melo[4], a objetividade jornalística é um “mecanismo de síntese”,mas “se converteu em sinônimo de verdade absoluta e é vendida como ingrediente para camuflar a tendenciosidade que existe no cotidiano dos veículos de comunicação”

O autor Elcias Lustosa[5] aponta no capítulo O Mito da Imparcialidade, do seu livro O texto da Notícia, que a imagem da imprensa como mediadora imparcial é utilizada para promover o discurso e os interesses dos próprios meios de comunicação.

“A imparcialidade e a impessoalidade jamais ocorreram efetivamente no jornalismo. Nos anos 1950, os jornalistas, com raras exceções, assumiram a pregação da imparcialidade como princípio ético e moral do jornalismo, embora praticassem exatamente o contrário.”(…) “É razoável concluir que, por sua origem e pelos seus defensores, a imparcialidade não passava, e não passa ainda hoje, de mera retórica, sendo usada para preservar o discurso e os interesses do próprio veículo.”

O ideal de imparcialidade coloca-se como referencial. Apesar de não ser possível de ser atingido, permite policiar a postura do jornalista quando este toma uma postura ética.             Quando não, tornar-se uma ferramenta para agregar credibilidade ao material produzido. Os manuais de redação ajudam a construir a imagem da imprensa como instituição neutra. O Manual de Redação e Estilo da Folha de São Paulo[6] orienta o profissional para que ele “Faça textos imparciais e objetivos. Não exponha opiniões, mas fatos, para que o leitor tire deles as próprias conclusões” e que “Seja rigoroso na escolha das palavras do texto”. Mesmo obedecendo à instrução apresentada pelo manual é possível produzir material editorializado. O rigor na escolha das palavras abre espaço para a criação de subjetividades.

Já o Manual geral da redação[7] da Folha de São Paulo expõe que “O que se busca é a notícia: o fato comprovado, relevante e novo. [...] fatos são mais fortes do que declarações”. Ao apresentar uma lista de fatos, mesmo sem incluir declarações ideológicas, é possível omitir argumentos ou retira-los de contexto, o que compromete a imparcialidade do texto.

As orientações técnicas mostram que a imprensa sustenta que o texto produzido sob as normas exigidas pelos manuais de redação é transparente e, conseqüentemente, neutro[8].


[1] KOCH, I.G.V. Argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez, 1984.

[2] FREIRE, P. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

[3] BRETON, Philipe.  A argumentação na Comunicação, Bauru: Edusc, 2003. p.60

[4] MELO, José Marques de. A questão da objetividade no jornalismo, Cadernos da INTERCOM, S. Paulo, INTERCOM, Setembro de 1985, ano 3, Vol. 7, ps. 7/9.

[5] LUSTOSA, Elcias. O texto da notícia, Brasília: EdUNB, 1996.

[6] O ESTADO DE SÃO PAULO. Manual de redação e estilo. Organizado por E. Martins. São Paulo: Câmara Brasileira do Livro, 1990. , p. 18-19

[7] FOLHA de São Paulo. Manual geral da redação. São Paulo: F. de São Paulo, 2001. p. 27

[8] MELO, S.H.D. O Discurso de Neutralidade da Imprensa. Linguagem em (Dis)curso – LemD, Tubarão, v. 5, n.1, p. 29, jul./dez. 2004. Disponível em:
<http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0501/4%20art%202.pdf> Última verificação em: 26/08/2008.

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