Segue o rascunho do primeiro tópico da minha monografia =D. No trabalho vou falar sobre a interatividade como ferramenta de persuasão.
Jornalismo e imparcialidade
Embora promova uma imagem de imparcialidade a indústria de informação não é capaz, seja por características lingüísticas ou éticas, de atingir o ideal prometido. A técnica jornalística apurada e o cuidado para manter uma linguagem objetiva, que bloqueie o uso de subjetividade, funcionam como pretexto para criar a imagem de instituições que permitem trazer um relato fiel dos fatos para o público.
A parcialidade dos discursos é uma questão linguística, não associada necessariamente à comprometimentos éticos e morais. Para Koch, toda atividade de comunicação contém, em maior ou menor grau, argumentação. Mais ainda, a própria linguagem “pode ser encarada como ‘ação sobre o mundo dotada de intencionalidade’, veiculadora de ideologia, caracterizando-se, portanto, pela argumentatividade”.
Com este posicionamento a autora chega a conclusão de que todo discurso contém traços ideológicos. A neutralidade plena é impossível, pois o discurso que busca a imparcialidade carrega a ideologia da sua própria objetividade. Para a autora, “este postulado nega a distinção entre dissertação e argumentação. Também mostra que há argumentatividade em texto narrativos e discritivos”.
O comprometimento ideológico da neutralidade também já foi sido observado por Paulo Freire, ao apontar que o discurso da neutralidade parte de indivíduos que “estão comprometidos consigo mesmos, com seus interesses e com os interesses dos grupos aos quais pertencem”. Para ele, aqueles que dizem possuir uma postura neutra frente ao mundo não o são e revelam medo em assumir um compromisso de humanização do mundo para a humanização dos homens.
Esta posição é aceita por Philipe Breton, embora ele faça ressalvas para sejam estabelecidas barreiras para definir se houve ou não intencionalidade clara de argumentação no discurso.
“De certa maneira esta posição é correta, pois o homem se voltou aos outros, graças à sua linguagem. Mas, para se exprimir melhor, é necessário dar a este termo um sentido mais preciso e restabelecer, mesmo que um pouco artificialmente, fronteiras para distinguir, do ponto de vista da comunicação e de sua intencionalidade, as ações humanas que visam fazer partilhar uma opinião, das ações que buscam informar, seduzir… ou ainda dizer nada.”
Para José Marques de Melo, a objetividade jornalística é um “mecanismo de síntese”,mas “se converteu em sinônimo de verdade absoluta e é vendida como ingrediente para camuflar a tendenciosidade que existe no cotidiano dos veículos de comunicação”
O autor Elcias Lustosa aponta no capítulo O Mito da Imparcialidade, do seu livro O texto da Notícia, que a imagem da imprensa como mediadora imparcial é utilizada para promover o discurso e os interesses dos próprios meios de comunicação.
“A imparcialidade e a impessoalidade jamais ocorreram efetivamente no jornalismo. Nos anos 1950, os jornalistas, com raras exceções, assumiram a pregação da imparcialidade como princípio ético e moral do jornalismo, embora praticassem exatamente o contrário.”(…) “É razoável concluir que, por sua origem e pelos seus defensores, a imparcialidade não passava, e não passa ainda hoje, de mera retórica, sendo usada para preservar o discurso e os interesses do próprio veículo.”
O ideal de imparcialidade coloca-se como referencial. Apesar de não ser possível de ser atingido, permite policiar a postura do jornalista quando este toma uma postura ética. Quando não, tornar-se uma ferramenta para agregar credibilidade ao material produzido. Os manuais de redação ajudam a construir a imagem da imprensa como instituição neutra. O Manual de Redação e Estilo da Folha de São Paulo orienta o profissional para que ele “Faça textos imparciais e objetivos. Não exponha opiniões, mas fatos, para que o leitor tire deles as próprias conclusões” e que “Seja rigoroso na escolha das palavras do texto”. Mesmo obedecendo à instrução apresentada pelo manual é possível produzir material editorializado. O rigor na escolha das palavras abre espaço para a criação de subjetividades.
Já o Manual geral da redação da Folha de São Paulo expõe que “O que se busca é a notícia: o fato comprovado, relevante e novo. [...] fatos são mais fortes do que declarações”. Ao apresentar uma lista de fatos, mesmo sem incluir declarações ideológicas, é possível omitir argumentos ou retira-los de contexto, o que compromete a imparcialidade do texto.
As orientações técnicas mostram que a imprensa sustenta que o texto produzido sob as normas exigidas pelos manuais de redação é transparente e, conseqüentemente, neutro.